24.10.2013
S4T ENTREVISTA PROJETO AXIAL


Fazendo jus ao eixo “Música, suas Sínteses e seu Novo Som”, o Projeto Axial abusa do experimentalismo ao produzir um som de fácil apreciação, mas de difícil definição. Trip Hop, Eletro Rock e MPB são tags que ajudam mas não catalogam essa obra hiper sensorial assinada pelo cantora Sandra Ximenez e pelo produtor Felipe Julián, que nos concedeu a entrevista:

 


• O Projeto Axial nasce de qual necessidade?

 

Foi o desejo de trabalhar num hibrido de música eletroacústica com música tradicional brasileira. Foi também a necessidade de buscar novos caminhos para a canção. Novos caminhos que mais do que dar mais tempo de fôlego à esse gênero, o expandissem de forma que ele se torna-se mais permeável à outras interações. E, por fim, foi também fruto de nossa paixão pelas artes visuais e nosso desejo de transferir para a música certos aspectos da escultura, instalação, performance, etc.

 

 

• Por que vocês se consideram um Projeto e não uma banda? Isso se dá pelo fato de produzirem música eletrônica ou tem outra explicação?


Entendemos que atuamos como banda quando estamos no palco e como coletivo de produção fora dele. Fazemos muitos trabalhos de trilha sonora, instalações, vídeos, etc. Portanto não nos resumimos a uma banda. Por outro lado, estamos em constante e ininterrupta recriação de nós mesmos. Quem nos viu em 2003 não imagina o que estamos fazendo em 2013. Aliás, quem nos viu o ano passado pode se preparar para uma experiência nova quando nos assistir novamente. Portanto, consideramo-nos em constante recriação de nós mesmos. Somos um projeto e não o produto em si.

 

 

• Geralmente quando pensamos em música eletrônica, vem de imediato a ideia popular de uma música voltada para festa e para a experiência em ambientes agitados. No caso do experimentalismo do Axial, vocês acabam rompendo com esse paradigma, trazendo muitas outras possibilidades, sobretudo uma bagagem de músicas tradicionais de raiz. Como acontece essa síntese de linguagens e sonoridades?


Pensar que música eletrônica é aquela da pista de dança é um equívoco. A música eletrônica existe desde o estudo N2 de Stockhausen ou das primeiras colagens dos concretistas Pierre Shaeffer e Pierre Henry. Portanto a música eletrônica vai muito além da pista. Na verdade sua chegada na pista é o momento em que ela entra no fluxo criativo da música popular. Nós do Axial temos influência de todos esses gêneros da música eletrônica. Não apenas da popular. Não apenas da erudita. O nosso parâmetro é o trabalho em cima do abstracionismo sonoro. Gerar experimentos cognitivos. Vivências sensoriais que aproximem o ouvinte de uma experiência que Manoel de Barros definiu como “Infância da Língua”. E nesse sentido, tanto a música dançante quanto a música contemplativa nos servem de matéria prima, modelo e inspiração.

 

 

Nesse contexto de globalização, de forte hegemonização cultural, ressignificar a música tradicional através do experimentalismo eletrônico acaba sendo uma estratégia de fortalecimento das culturas locais?

 

É pra ser rápido aqui? Rsrs. Bem, certamente é. Mas também é importante entender que essa opção por utilizar algumas canções tradicionais tem relação com uma empatia estética sem explicação alguma. Gostamos e ponto. Mas não deixo de me sentir responsável pela ressignificação que o uso desse material passa a ter nos dias de hoje. Então... sim, esse uso acaba lembrando às pessoas que existe uma fonte de onde essa matéria prima surgiu. E essa matéria prima tende a se esgotar se não proteger-nos essas fontes. Por isso acreditamos numa postura preservacionista. Nunca conservacionista!

 

 

Qual é o grande trunfo da música eletrônica? É justamente essa capacidade de experimentar e trabalhar com diversos timbres manipulando apenas um computador?

 

Na minha opinião é ter devolvido à musica sua essência: o abstracionismo, a intangibilidade. Vivenciar a experiência sonora é um processo que vai de encontro à questões muito primitivas do ser humano. A audição é o primeiro sentido a se desenvolver ainda dentro do útero materno. É o único sentido omnidirecional. É o único sentido que permanece ligado memso quando dormimos. A audiçõa é muito muito muito primitiva e portanto está ligada à nosso ser animal ainda. A canção tradicional (MPB, Rock, Jazz) embutiu pesada bagagem semântica nessa experiência e a distanciou desse primitivismo. A música eletronica e seus vetores nos permite recuperar esse elo

 

 

• Como é a cena de música eletrônica experimental no Brasil?

 

Crescente. Interessante. Cheia de talentos. Com pouca grana.

 

 

Vocês nesses 10 anos de banda sempre buscaram pensar em novas possibilidades de distribuição, no desenvolvimento de aplicativos, visando fortalecer a ideia de compartilhamento de cultura livre. Observando esse período de reconfiguração da indústria nas novas redes, vocês são otimistas e acreditam que a comunicação tende a democratizar ainda mais?

 

Fomos otimistas durante quase todo esse tempo de história do Axial. Infelizmente tenho que admitir que desde 2010 para cá, o que estamos vendo é o capitalismo cooptar a Internet definitivamente. O modelo Itunes de negócio está vencendo todos os demais porque as pessoas ainda acreditam que o mercado é a única solução. As pessoas ainda acreditam no mercado. Mas equivocam-se ao supor que mercado e indústria convivam em harmonia. O Itunes não é mercado. É indústria. E portanto, assim como Facebook, assim como Google, assim como YouTube, tendem ao monopólio. E, estando sediados nos EUA, logram esse monopólio. Os americanos investem nessas plataformas mesmo que elas não produzam retorno durante muitos anos. Essa é a lógica da indústria. Não do mercado. Lamentavelmente o Brasil, apesar de ser um ninho de gente genial, livre e hacktivista, depende desse vínculo com a indústria para obter lucro. Afinal, o mercado brasileiro de música (só de música?) foi massacrado após os anos 70 pela tal indústria fonográfica. Pra entender o que ocorreu com a música no Brasil e no mundo sugiro assistir o documentário Mondo Vino. Ele conta essa mesma história que agora está ocorrendo com a produção artesanal de vinhos. É a globalização unilateral. Nesse filme assim como no Brasil, veremos a máquina industrial passando como um rolo compressor na produção artesanal e cooptando uma das categorias que eu considero principal responsável pelos problemas que temos hoje: jornalistas. Infelizmente, jornalistas precisam comer e pagar as contas e por conta disso tendem a vincular-se com "cases" bem sucedidos industrialmente pois assim garantem a sustentabilidade de seu negócio a longo prazo. A lógica da relevância é um filtro perverso pela qual os jornalistas se lançam sem medir consequências. Estou certo de que os jornalistas não são conscientes disso. Mas deveriam ser. Pois voltaram a agir, em plenos anos 2010, em plena transição da massmedia para cibercultura como agiam na década de 80 e 90: produzem uma relação simbiótica onde são favorecidos à medida que favorecem. Com isso temos uma distorção séria da realidade da produção cultural brasileira. Erro que, para ser minimamente reparado, custa à Funarte, ao Governo, à Petrobras e aos demais investidores uma pequena fortuna.

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